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ficha técnica
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2007 – Participação em concurso
Descrição:
Há projetos de arquitetura que se impõem soberanos em grandes espaços livres, situações aprazíveis e visíveis à distância, e há outros projetos que se acomodam em situações adversas, espaços mínimos, nesgas de terrenos comprimidos por construções preexistentes, ou mesmo adaptações e adequações de espaços construídos, em que os parâmetros para seu desenvolvimento são ditados pelas dificuldades. O caso do Centro Cultural do Sesc se enquadra dentre esses últimos. E não é por decisão voluntária ou por opção entre esse ou aquele aproach, por essa ou aquela direção a tomar. O que nos leva a uma escolha e decisão conceitual é, precisamente, a natureza do lugar. É sua compreensão enquanto espaço resultante de fatores sócio-políticos ao longo de muitos anos – ou séculos – de formação da cidade. Compreender o lugar não somente como objeto físico, como diz Siza, mas como espaço de memória, de tensão, de conflitos de interesses, de subutilização ou mesmo abandono, tudo importa. Daí extraímos seu valor histórico.
Se, por um lado, o projeto deve responder à demanda de um programa de diversos novos usos ligados às artes (teatro, musica, dança, cinema e literatura), deve também responder de maneira clara e transformadora a uma situação física e espacial preexistente, com vida intensa e com uma vizinhança fortemente presente. Mais ainda, deverá criar novos espaços de convivência a partir da geografia urbana, da história local e dos valores contemporâneos da vida pública, onde inclusão, diversidade e tolerância formam a base da criação.
Concluindo, podemos dizer que neste caso, projetar é captar e inventar o lugar a um só tempo, numa mesma ação.
“…uma coisa é o lugar físico, outra coisa é o lugar para o projeto. E o lugar não é nenhum ponto de partida, mas é um ponto de chegada. Perceber o que é o lugar é já fazer o projeto.” – Álvaro Siza
O lugar do projeto
– O espaço físico do projeto engloba a totalidade do Edifício Glória, que ocupa uma posição de destaque no centro de Vitória, circundado por três ruas. Possui importantes fachadas estilísticas tombadas pelo Conselho Municipal do Plano Diretor Urbano;
– Além das imponentes fachadas, o edifício abriga um teatro (ou cine teatro) histórico em relação à memória urbana, que é o verdadeiro coração do edifício e sua razão maior de existência;
– Assim como em quase toda a região central, o lugar tem uma vizinhança predial caótica do ponto de vista volumétrico, das normas de insolação e ventilação saudáveis;
– O lugar possui uma situação privilegiada de humanidade ao seu redor, rica em diversidade, vitalidade, mistura de classes sociais, conflitos e tensões, convivência e busca de tolerância, em resumo, de urbanidade.
O projeto
Podemos resumir nosso projeto arquitetônico em alguns pontos:
– Manutenção das fachadas externas totalmente restauradas em sua forma original, ou seja, revestimento em pó de pedra sem pintura, esquadrias e caixilhos de madeira e elementos escultóricos recuperados. Uma iluminação de fachada adequada dará vida nova ao edifício.
– A manutenção do teatro como “coração” do edifício, porém quase totalmente refeito. Quase porque guardamos do antigo teatro sua caixa cênica, seu palco (com aumento do proscênio) e seu domo no teto. Com um novo elemento – uma grande parede de concreto -, que retoma as curvas originais da platéia e galeria, refizemos o teatro (400 lugares) e uma sala de cinema (150 lugares) no subsolo, servidos por um grande hall;
– Este hall será o grande espaço de acolhimento que deverá orientar o público para as circulações horizontais e verticais em direção aos diversos setores de atividades. Ponto aglutinador e organizador de todo o edifício e lugar de contato direto com a rua Marcelino Duarte, que passará a ser entrada principal para público;
– A nova parede curva em concreto aparente do teatro e cinema terá rebaixos em sua superfície interna que serão preenchidos com painéis de tapeçarias coloridas. Isto garante qualidade acústica aos ambientes além de valorização deste novo elemento arquitetônico;
– Todos os pavimentos receberão forros acústicos abaixo da linha das vigas para eliminar o efeito caótico dos elementos estruturais existentes nos novos ambientes. O entreforro será utilizado para o embutimento das instalações elétricas, de sonorização, circuito de lógica e segurança;
– Criação de uma “praça” interna no atual vazio central do edifício, coberta por estrutura leve de aço e vidro, com jardim vertical dos quatro lados e ventilação natural. Este espaço de convivência deverá articular alguns setores como ateliês de artes plásticas, pequeno teatro (150 lugares), grande sala de dança e salas de música. Esta praça assume o mesmo papel aglutinador que o hall do pavimento térreo, um novo core para os andares superiores do edifício;
– Criação de um grande terraço em toda a laje de cobertura, que funcionará como belvedere para a cidade e as nesgas de vistas para o canal. Demoliremos a mansarda e, em seu lugar construiremos um bar/café de estrutura leve, integrada;
– Ainda na cobertura isolado por painéis metalicos deverá ser implantado todo o equipamento de ar condicionado que alimentará os diversos pavimentos através de tubos metálicos externos aparentes que correm pelos dois trechos no recesso da fachada voltada para os edifícios vizinhos. As tubulações de insuflamento e retorno penetram nos diversos pavimentos e circulam horizontalmente no interior do edifício;
– Com a exceção da cobertura de vidro e aço do terraço, as ações que propomos são basicamente interiores, são adequações nos espaços internos, preparando-os para as novas atividades que estarão guardadas pelas fachadas restauradas.
Ainda que aparentemente sutis e respeitosas em relação aos aspectos construtivos do edifício, as intervenções propostas mudarão radicalmente suas relações espaciais, integrando, abrindo visuais, criando flexibilidade e permeabilidade em seus ambientes: criando uma nova ordem, como requer a vida contemporânea.
Esses edifícios históricos são registros físicos e simbólicos remanescentes da cidade do século passado que, como raízes dos novos usos, sustentarão uma vida por ser inventada. Com eles, não estamos partindo da estaca zero.

