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Se a Vila de Paranapiacaba pode ser chamada de coração ferroviário brasileiro, o Museu Aberto da Ferrovia, ali instalado com todos os requisitos museológicos, deverá ser o “coração do coração”.
Depois de décadas de semi-abandono, dezenas de tentativas de recuperação através de iniciativas de vários setores da sociedade civil e da administração pública, chegamos a um momento único de convergência de oportunidades e interesses em salvar Paranapiacaba do avanço da deterioração e reabilitá-la a uma nova vida em consonância com os dias atuais.
Uma nova vida em que usos e funções não destruam o belo e valioso documento arquitetônico, único da história da ferrovia em nosso país. Com tombamento do conjunto pelo IPHAN, a conscientização pela necessidade de preservação tem movimentado vários setores da sociedade:
– A Prefeitura Municipal de Santo André comprou a vila operária no intuito de recuperá-la e readequá-la a novas habitações;
– O IPHAN, agora proprietário de todo o espólio da Rede ferroviária Federal, tem uma grande responsabilidade nas mãos e quer encontrar soluções duradouras através de parcerias publicas e privadas;
– A MRS, empresa que detém a concessão das linhas férreas da descida da serra até Cubatão quer implantar um moderno sistema de esteira rolante para minérios em uma delas e deve, para isso, atender a vários pontos de contrapartida na recuperação e preservação do patrimônio histórico;
– O setor turístico – órgãos governamentais e privados – veem a possibilidade concreta de reativação da linha de passageiros (quiçá até Santos, num futuro próximo) para o desfrute de um conjunto arquitetônico/urbanístico original, encravado na exuberante Mata Atlântica preservada;
– E, por fim, mas não por último, os vários setores da sociedade civil, grupos mais ou menos organizados de apaixonados por Paranapiacaba e pela Serra do Mar, “tribos” de caminhantes aventureiros, moradores de Paranapiacaba, todos aqueles que têm mantido viva a vila e sua memória, seus sonhos passados e futuros.
O termo “museu aberto” não significa um museu ao ar livre, mas sim, um museu em constante e progressiva construção e formação. Um museu que possa incorporar novos membros, unidos pelo ideário de preservação da memória ferroviária como memória do trabalho humano na construção do país. O núcleo de Paranapiacaba será portanto, complementado pelo núcleo da Mooca, que abrigará o centro de documentação, pelo núcleo de Campinas/Jaguariúna, por Jundiaí, Cordeirópolis e quantos outros que venham a se formar numa grande corrente de museus ferroviários. Cada um com sua originalidade e especificidade.
A implantação do MAF no coração da vila de Paranapiacaba a partir do museu existente, aumentando sua área de abrangência física e museológica, poderá ser a mais forte ação de salvaguarda do patrimônio histórico arquitetônico. O próprio tecido urbano passará a contar com uma nova área para uso público. Uma área de convergência e agregação dos moradores e visitantes, projetada para tal. Equipada em todos os sentidos, para o convívio e o desfrute da vida urbana e do turismo cultural e ambiental.
Dividimos nosso projeto em três conjuntos com diferentes funções:
1. Estação e torre do relógio
A estação existente deverá ser restaurada e adequada para voltar a funcionar como a porta de entrada principal dos visitantes de Paranapiacaba. A torre do relógio, referência importante da paisagem da vila e a passarela metálica de transposição das linhas, e acesso à estação e ao museu, deverão também ser restaurados e ter suas condições de estabilidade e segurança inteiramente assegurados.
2. A praça das oficinas
Neste setor, atualmente em completo abandono, implantaremos as oficinas de restauro de composições, locomotivas e equipamentos ferroviários, como escolas de formação de mão de obra. Toda a área do entorno, incluindo a rotatória, deverá ser incorporada à vila como praça ou área pública aberta e equipada com iluminação, tratamento paisagístico, pavimentos, etc. Será o novo centro cívico aberto à convivência diária e às mais diversas manifestações artísticas e lúdicas. Manteremos no centro o belo galpão das oficinas, o virador de trens, a casa do administrador, etc.
3. O museu
Um novo sistema de circulares vertical (elevador/escadas) a partir do centro da passarela que liga os dois lados da cidade é o acesso principal aos visitantes, incluindo novo acesso para deficientes. O atual museu deverá passar por uma revolução. Alguns nichos ou “puxados” serão demolidos para a valorização dos edifícios principais e de novas construções adequadas ao futuro museu. Um novo edifício em concreto aparente deverá ser construído, conectando os espaços dos galpões principais e ser restaurados sem tocá-los, como forma de respeito e de distinção clara entre o velho e o novo. Ligações de vidro liso transparente no contato entre eles permitem a leitura integral das fachadas em tijolo aparente além de oferecer uma faixa de luz zenital de grande valor museográfico. Este conjunto será destinado a abrigar a exposição permanente, o acervo fixo deste museu. O Galpão da oficina de rodas e oficina de volantes será destinado às exposições temporárias, palestras e eventos de diferentes tipos, um espaço equipado para ser efetivamente multiuso. A antiga casa de caldeiras deverá ser recuperada e transformada em café e loja de souvenirs do museu. Sua localização como última construção antes do mirante de onde se divisa a magnífica paisagem da baixada santista e suas características construtivas a qualificam como espaço ideal para estes usos. Duas marquises constituídas por finas lâminas de concreto fazem a ligação destes diversos ambientes. Um caminho coberto e aberto à paisagem de Paranapiacaba e da Serra do Mar.

