Casa do Samba de Roda de Dona Dalva

Cachoeira, BA
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ficha técnica

Ano:
2024
Área:
780m²
equipe:
Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz
Imagens:
Aristides Alves, Samuel Macedo e Acervo Brasil Arquitetura
Premiações:

Descrição:

O terreno para este projeto está inserido no Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Cachoeira, tombado pelo Iphan em 1971. A construção da sede da Casa do Samba de D. Dalva representa o restauro de uma lacuna no conjunto urbano tombado, a partir da requalificação de um casarão histórico de 3 pavimentos que se encontra em total estado de arruinamento, restando-lhe apenas a fachada frontal, de alvenaria autoportante, onde ainda estão preservados os vãos das esquadrias do primeiro e segundo pavimentos e elementos arquitetônicos como a sacada e seu guarda-corpo metálico. Tal intervenção traz melhorias consideráveis para o conjunto tombado e sua ambiência.

São, em verdade, dois imóveis contíguos. Um deles foi adquirido formalmente, por compra, pela Associação Samba de Roda Dalva Damiana de Freitas; o imóvel vizinho, o terreno contíguo da esquina, pertencente ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC-BA -, foi cedido em comodato para atender ao projeto da Casa do Samba e será incorporado ao primeiro imóvel.

Ao se recuperar a integridade dos imóveis com vistas a proporcionar condições ao desenvolvimento das ações que irão beneficiar o Samba de Roda do Recôncavo Baiano enquanto patrimônio imaterial, o projeto também será um marco nas políticas públicas de preservação do Patrimônio Material, pois o seu principal objeto é a restauração do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Cachoeira, a partir da requalificação de dois casarões.

Tecido ao longo dos séculos, o desenho de Cachoeira faz um delicado jogo de ampliações e reduções de seus vazios entre ruas, largos, becos e praças. Do imóvel dedicado à Casa do Samba, resta apenas a fachada, cindida a dois terços pelo tempo e abandono. Fotografias antigas revelam um raro beiral diamantino (Arraial do Tijuco, atual Cidade de Diamantina) que, talvez por um contágio cultural, tenha brotado no Recôncavo. Mas as fotografias são insuficientes para se ousar sua reconstrução.

Partimos da antiga fachada, 3 portas ao rés-do-chão e 3 janelas rasgadas por inteiro no balcão do primeiro pavimento para ganhar o terreno adjacente, ora também pertencente à Casa do Samba. Do antigo sobrado, reconstituímos sua volumetria (não exatamente com a mesma altura), mas reconstituindo o telhado de duas águas, tão característico dos estreitos terrenos coloniais entre paredes meãs que, em vista voo-de-pássaro, irão manter o desenho do conjunto urbano de telhados. Por outro lado, ao rés-do-chão, mandatório é o ritmo das fachadas com seus cheios e vazios, portas e nembros que unem imóveis diferentes dando a eles força de conjunto.

No novo volume que ocupa o terreno de esquina com o largo ao fundo da Igreja do Rosário, retomamos a sequência de portas (9 para ser exato) que ditavam o ritmo da cidade colonial, porém nele não fazemos telhado como se fora uma reconstituição urbana, pois não é, é um projeto do século XIX.

A imagem do oitão, tão característico dos imóveis coloniais de esquina, ainda assim será retomada pelo oitão do primeiro imóvel (rua 13) que se verá sobre o volume seco e novo da esquina.

O largo será conquistado pela nova edificação, valorizando justamente o que há de mais especial nesse urbanismo: seus vazios.

Internamente o imóvel é um só em termos de funcionamento, circulação e programa, mas da rua e mesmo internamente, a memória dos dois imóveis permanece no projeto.

Junto ao espaço do samba de roda será construída uma fonte com água em movimento, coletada das chuvas por uma longa calha de concreto. Será dedicada a todos os orixás.