Memorial da Democracia

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Memorial da Democracia

A arquitetura do Memorial da Democracia deve expressar solidez, transparência, claridade, multiplicidade, diversidade e urbanidade. Deve também ser convidativa, acessível, gentil.


Nosso projeto nasce de uma aproximação com o lugar onde será construído. Lugar físico e socioambiental – a geografia e a história urbana da região da Luz. Do desenho das duas quadras sai, como uma resultante, a planta e a forma dos dois volumes que hospedarão todo o programa de uso, toda a vida do futuro Memorial. Será, portanto, uma reafirmação do traçado urbano e da ocupação preexistente.


Respeitando a legislação atual e as recomendações urbanísticas de posturas construtivas para a área da Luz, projetamos um grande conjunto que a Rua dos Gusmões divide em dois. Serão dois blocos que se interpenetram através de passarelas e rampas aéreas. Pela forma triangular dos lotes, o conjunto se assemelha a uma grande “cunha” cravada na área central da cidade. Assim, é do diálogo e da reciprocidade com o lugar que sai nossa arquitetura, e não de desejos formais ou premissas pautadas exclusivamente na arbitrariedade que todo gesto arquitetônico contém, em maior ou menor escala.


A arquitetura do Memorial da Democracia deve ser contundente, afirmativa, presença forte na paisagem urbana. Deve ser mais um marco na cidade. Para além do significado de uma instituição que contará a história da conquista da democracia no Brasil, sua inserção entre os vários monumentos da região – Jardim e Estação da Luz, Sala São Paulo, Pinacoteca do Estado, Estação Pinacoteca (antigo Deops) – justifica uma presença marcante na paisagem da cidade.


Optamos pela tecnologia bem brasileira do concreto armado e protendido como base estrutural e material de nossa construção. E, dentro desta tecnologia, utilizaremos, pela primeira vez no Brasil, o concreto “autolimpante”. Trata-se de um concreto com cimento branco e agregados como dióxido de titânio que, num processo catalítico, reage em contato com a poluição, conservando sempre o branco do edifício, sem necessidade de manutenção. Teremos, portanto, um grande conjunto branco que, visto de perto, revelará uma gama de agregados coloridos, pedras, seixos, pedriscos etc, que o compõe.


Sobre a escolha do branco, vale a pena lembrar Le Corbusier:

O leite de cal está vinculado à moradia do homem desde o nascimento da humanidade; calcinam-se pedras, trituram-se, diluem-se com água, e as paredes ficam do mais puro branco; um branco extraordinariamente belo.


O branco de cal é absoluto, tudo nele se destaca, escreve-se absolutamente, preto no branco; é franco, leal.


...o leite de cal é a riqueza do pobre e do rico, de todo mundo, como o pão, o leite e a água são a riqueza do escravo e do rei.

...a obra da época, tão ousada, tão aventureira, tão belicosa, tão conquistadora (na trilogia...), parece esperar de nós que pensemos contra fundo branco.


Em uma das fachadas mais evidentes, a grande parede branca voltada para a rua Mauá, faremos uma concentração de pedras trazidas de todas as partes do Brasil, como um verdadeiro núcleo de galáxia que explode numa miríade de pontos e cores de texturas variadas. De diferentes formas e dimensões, estas pedras serão concretadas juntamente com as paredes que irão subindo, e a elas ficarão amalgamadas para sempre. Dessa concentração original irão se rarefazendo por todas as fachadas do conjunto, até desaparecerem no extremo oposto, na “ponta da cunha”.


Durante a obra, convidaremos representantes de todos os estados e rincões do Brasil para assistirem à concretagem de suas “pedras natais”. Assim, a arquitetura e sua construção já estarão incorporando o tema do Memorial, reafirmando simbolicamente, com pedra e pedra de todas as partes, a luta pela conquista e construção da democracia.


Com exceção das áreas de acesso aos pavimentos inferiores e superiores (portarias e recepções), o pavimento térreo será basicamente um logradouro público, É a cidade que adentra o edifício por sua grande “boca” e o utiliza também como passagem coberta, como nos mais tradicionais e democráticos exemplos das galerias que marcam o melhor momento da arquitetura pública, voltada ao caminhante. Podemos citar os bem sucedidos Conjunto Nacional, vão livre do Masp ou Galeria do Rock, dentre tantos em São Paulo; ou as famosas passagens de Paris e Praga.

Neste mesmo vão livre – a boca de entrada – duas paredes estruturais servirão de grandes telas a mostrar pessoas, filmes e cenas do cotidiano do povo brasileiro, dando as boas vindas ao transeunte urbano ou ao visitante do Memorial. Do lado direito, na direção da antiga sede do Deops, uma chama eterna lembrará os mortos e desaparecidos que lutaram pela democracia. O tema do Memorial começa a ser vivenciado ali, no espaço público.


Os dois blocos do conjunto, conectados por passarelas e rampas aéreas, cumprirão distintos papeis, usos e funções. Estes caminhos que os unem se darão em pontos estratégicos de maior fluxo de pessoas e conexões museográficas.


O primeiro bloco, maior em área e altura, será o Memorial da Democracia propriamente dito, com funções museográficas e de convivência, em sua totalidade. No subsolo, um auditório com 300 lugares poderá funcionar independentemente do restante do conjunto. O primeiro pavimento, como uma Praça ou Ágora, será totalmente destinado ao acolhimento, convivência, leitura, cafeteria e apoios de estar: o ponto de parada e encontro antes e depois da visita às exposições. Nos pavimentos superiores, uma sucessão de salas de tamanhos e pés direitos variados e circundadas por mezaninos, perfazendo mais de 4000m², abrigará a diversificada museografia do Memorial da Democracia. Espaços polivalentes e flexíveis, que poderão se transformar ao longo do tempo, seja com o advento de novas tecnologias expositivas, seja com novos tratamentos museográficos e temáticos. Na cobertura deste bloco, coroando o conjunto, teremos um amplo terraço jardim com um café restaurante (ou uma bela chopperia...) a desfrutar da vista do entorno: será a celebração da cidade como palco maior da democracia.


O segundo bloco abrigará em seus dois pavimentos de subsolo um grande depósito para guarda do acervo presidencial e algumas vagas de garagem de apoio. Os pavimentos superiores serão dedicados a exposições temporárias, salas de pesquisa e estudos, salas de aula para cursos e simpósios, áreas administrativas e de apoios em geral e a sala do acervo visitável do presidente Lula, que poderá ser renovada de tempos em tempos, com diferentes curadorias. Na cobertura, um telhado jardim com várias espécies de belos capins brasileiros.


Acessibilidade universal e redução de consumo energético durante e após a construção são princípios fundamentais e inegociáveis do nosso projeto.


Esta será a casa da democracia brasileira: sentinela avançada e guardiã das conquistas e lutas, sofrimentos e glórias do nosso povo. Um presente para São Paulo e para o Brasil.

Ficha técnica

Autores
Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Victor Gurgel

Colaboradores
Anne Dieterich, Anselmo Turazzi, Beatriz Marques, Cícero Ferraz Cruz, Fabiana Paiva, Felipe Zene, Fred Meyer, Gabriel Grinspum, Gabriel Mendonça, Luciana Dornellas, Pedro Del Guerra; André Carvalho, Julio Tarragó e Laura Ferraz

Área
21220 m2

Local
São Paulo, SP

Ver Grande
Publicações

AU
2012
Escritório Brasil Arquitetura divulga projeto do Memorial da Democracia
Memorial da Democracia
Página 12
link

Projeto Design
2012
Democracia no centro de São Paulo
Memorial da Democracia
Página 32